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Admirador secreto
Jose Pedro Frazao

O dia chegou chuvoso.

A taberna onde Manoel Cascudo costumava prosear acordou molhada, com as horas se espreguiçando na parede durante toda a manhã.

Pela vidraça úmida os olhos do balcão seguiam, em silêncio, guarda-chuvas que singravam buliçosos o curso da calçada. Os de Manoel corriam pelas mesas solitárias à caça implacável do jornal do dia que um menino encharcado atirara pela janela.

Manoel aparentava estirpe nobre, era bem-falante e apessoado, mas quase um miserável, sem emprego fixo e de mal com a sorte. Morava por aí. Costumava ganhar tablóides lidos dos fregueses que invariavelmente também lhe pagavam uma xícara de pingado. Mas naquele dia de nuvens negras, nenhuma branca alma havia para lhe aplacar a vontade que estava de esquentar as tripas, conquanto a chuva deixara o dono do Café com cara de poucos amigos.

O jeito foi sair com o jornal na cabeça e a chuva na calça de mescla azul, em direção à praça, para onde o relógio o empurrava célere, na ânsia de cumprir o combinado das nove horas. Ali, num banco de cimento, entre gotas de água e de letras, encarou vento frio e soletrava as quentes do jornal com o olho morno na rua. Incontinenti, uma freada brusca de pneus lhe arrancou de susto o tablóide do rosto ensopado, e do carro de luxo desceram dois saltos altos de andar atraente, que estancaram diante do par de alparcatas, com ar de interrogação e dilúvio:

  • – Manoel?!
  • – Maria?!

A pororoca foi inevitável. Os corpos molhados se encontraram bravios. O jornal, indefeso, quedou carregado pelo vento insano, decompondo-se na água morta do chão. Mãos se procuravam, perdidas de desejo, e braços se encontravam em redemoinho. Lábios colidiam ofegantes sob trovoadas de corações em chama. A rua espreitava tudo. Olhos masculinos se atiravam feito boto nas ondas sedutoras do vestido molhado; os femininos, de través, desdenhavam a fusão ardente. As águas que despencavam forte eram figurantes celestes daquele inusitado encontro, até que os dois mergulharam exaustos no carro que esqueceu a praça.

No último domingo de verão, um chofer engravatado estacionou na porta da Matriz e o casal deixou a igreja com os convidados em festa. O choro de um menino avisou que a primavera enchia de felicidade o lar de Manoel e Maria. O destino havia cumprido sua tarefa, de tal forma que o macaréu se fazia permanente naquele rio-mar de paixão.

Maria das Dores, formosa e delicada, tinha fartura nos lábios, a cor do entardecer e olhos e cabelos da noite. Era órfã e herdeira de invejável seringal amazonense. Aquele era o primeiro homem da sua vida e com quem dividia o coração e a lida empresarial que se ampliava pela crescente produção de borracha, sorva e castanha-do-pará.

Manoel Cascudo nunca mais reclamou da sorte. Casara-se com a fortuna e a beleza. Sua vida mudara completamente. Apenas tornava-se áspero no trato com a esposa quando ela, aos dengos, lhe cobrava palavras poéticas e românticas. Maria sentia falta das doces mensagens de amor que outrora lhe traziam os misteriosos bilhetes perfumados do seu “Admirador Secreto” Manoel.

Certa feita, ele encontrou, às escondidas, os bilhetes apaixonados que ela guardava como relíquia no fundo de um baú de aviamentos. Também comprou no Regatão o perfume que embebia as mensagens. Para ele foi a chave do problema: quando ela soltava os cabelos e ficava com cara de pororoca, ele recorria à fragrância e às palavras dos tais bilhetes, repetindo-as, ainda que um tanto quanto prosaico. Assim, o romantismo voltava a reinar, o amor entrava em redemoinho e Maria se amoldava febril em seus braços como no encontro sob a chuva.

Aos domingos, ela dava folga aos seringueiros e se transformava em mãe-d`água, nos igapós, com o seu encantado Manoel declamando os versos achados no baú. Sentia-se outra vez cortejada, delirando a cada palavra e toque aromatizado do marid o. Com sorriso manchado de açaí, a volúpia dos seus lábios ecoava na floresta excitando a mata virgem. Era uma deusa flutuando entre vitórias-régias, vivendo a magnitude do amor com que tanto sonhara na clausura dos pais. No inverno, com os armazéns transbordando, Manoel fez sua primeira viagem de negócios, levando no navio a imagem do filho e a lembrança da boa esposa. Nesse período em que administravam o seringal, tinham como único meio de comunicação a correspondência flumínea. Mas ela, porém, afeita à criança e ao trabalho, contentava-se com a recordação da praça, do jornal ao vento, do encontro das águas, do banho no igapó e dos versos que ainda borbulhavam em seus ouvidos.

A distância trouxe tristeza e saudades. O tempo, para Maria das Dores, tornou-se inimigo do amor, obstáculo da paixão. Suas noites se davam à releitura dos bilhetes. Manoel, porém, a bordo de sua longa viagem, vestido em cambraia, deleitava-se em prosa com uma garçonete que conhecera na embarcação e que lhe fez prazerosa companhia – como era costume dela, especialmente em se tratando de emergente seringalista.

Bastaram quatro palavras, “Você é uma rosa”, que Manoel decorara num dos bilhetes, para que a jovem se derramasse em pétalas.

  • – E você é um cravo – respondera a donzela, enquanto lhe servia delicioso creme de cupuaçu.
  • – É a única rosa que tem todo o aroma da floresta; seiva da seringa que o hálito dos meus beijos defuma – rebuscou.
  • – Estou encantada com suas palavras e atraída pelo cheiro da borracha, que me excita – revelou a mulher.

Manoel acordava com a cabeça em Maria e o corpo nos braços da Rosa, que migrara para o seu camarote, de mala e cuia, meiguices e perfumes. O coração do seringalista abrigava, agora, dois amores. Cedera aos encantos da mulher do rio e preservava as lembranças da mulher da chuva. As viagens tornaram-se freqüentes e longas, como as noites da esposa e os dias do filho. As frases dos bilhetes segredados que aprendera eram armas infalíveis com que abatia suas rosas, margaridas e mariposas. Em cada porto, plantava em coração solitário sementes de amor etéreo, e, no navio, as marcas do admirador secreto abundavam os segredos das madames viajantes.

Na solidão do seringal, dia do seu aniversário, data em que estava mais ansiosa por uma carta, Maria recebeu um buquê de flores e um bilhete, com estilo bem familiar. Num frenesi de amor e saudades, com as mãos trêmulas e o coração palpitante, devasta o papel que em letras douradas declara: “Dona Maria, perdoe-me. Mas preciso confessar-lhe. Compareci ao nosso encontro, na praça, às sete horas conforme combinado. Eu a esperei até oito horas, debaixo de chuva. Depois, desiludido, voltei para o recolhimento da minha solidão. Vossa Mercê sumiu por um tempo e agora vejo que está casada e certamente feliz. Não posso esconder que continua linda e que eu a amo muito. Quis manter-me secretamente e acabei perdendo o grande amor da minha vida. Estou indo embora para muito longe, tentando esquecê-la, mas deixo-lhe meus votos de felicidades. Com muito amor, carinho e respeito. Feliz aniversário. Assina: O seu eterno admirador secreto, Manoel”.

Lágrimas de amargura sulcaram o rosto confuso de Maria durante noites passadas em claro. No navio, o marido contemplava as ondas do Rio Negro confortado nas curvas de Rosa, que se tornou sua acompanhante oficial. A lembrança da esposa era chuva fina esvaecida pelo calor da amante. A viagem de trabalho, diversão e luxúria. A brisa do rio entorpecia o casal, que em risos e beijos numa rede de seda balançava a relva do barranco. Era Rosa quem ouvia, agora, as palavras de amor que Manoel transportava dos bilhetes do baú aos corações flutuantes.

Cartas de Manoel não avistavam terra. Bilhetes e flores eram fantasmas na casa triste. Apenas difamantes notícias corriam por água para afogar o coração de Maria das Dores, que numa acertada decisão saiu em busca do marido errante. Não foi difícil lográ-lo no cam arote com a outra – um vexame que fez naufragar o casamento.

Na vã tentativa de reconciliação, Manoel se ausentou das viagens, mas encontrou fechados coração e casa. Só lhe restou o abandono e a opção de curar-se nos braços de Rosa, que deixara em prantos no navio. E foi para lá que se largou, investindo seu último dinheiro numa passagem de terceira.

Como um condenado que alimenta a esperança de salvar-se, palmilhou toda a embarcação a procura da amante, seu refúgio final. O desespero foi aumentando a cada resposta negativa sobre o paradeiro da mulher do camarote, até que o dedo da cozinha apontou furtivamente para o porão do navio, indicando que ela estava no convés. Esperançoso, desceu a escada do tombadilho, que o levou até à grande máquina por um corredor escuro e barulhento que exalava pitiú de tambaquis e pirarucus dependurados. Mais adiante, sobre um fardo de cernambi, entre latas de graxa e sacos de estopa, seus olhos vidrados encontraram o corpo de sua amada. Ela r efletia a luz de um candeeiro na pele alva e sedosa; estava bela e despida; seu dorso banhado de suor e carapanãs. Era pura flor desabrochada; era lontra gemendo, iara contorcendo-se em delírio, peixe-mulher cavalgando aos gritos e risos ofegantes, balbuciando palavras doces que aprendera com Manoel. E sob ela vociferava feliz o gigante e rude maquinista do navio.

Os espinhos da Rosa traspassaram o coração debilitado de Manoel Cascudo, que saiu feito vendaval escada acima até atingir o toldo do navio. Naquele instante, a embarcação também era traída pela tempestade e pelo banzeiro. Ele hesitou por alguns minutos agarrado ao mastro, admirando a pororoca e o rebojo deixado por um cardume de botos vermelhos que iniciava a piracema. Os gemidos da água se confundiam com os que vinham do porão. As imagens da amante, da esposa e do filho eram lâminas que lhe cortavam a pele de seringueiro para extrair o látex da vida. Sem que ninguém notasse, atirou-se atrás dos botos na turbulência das águas negras.

A viúva dedicava-se inteiramente ao filho e ao trabalho. Seu coração magoado nunca mais se enamorou. Mesmo tendo passado um ano da separação e sentindo-se levemente atraída sem maiores arroubos por um arigó que acabara de contratar, mantinha firme sua opinião de que todos os homens são iguais: admiradores, secretos e traidores. Mas aquele humilde seringueiro, de rosto sofrido, tímido, e de porte físico atraente, a incomodava a ponto de fazê-la sentir-se vulgar. Às vezes, seus olhos inebriados o seguiam até a prancha do rio, onde tomava banho. Ele tinha algo diferente; não sabia o quê. O jeito, a confiança, o sotaque nordestino, o olhar, talvez. Parecia-lhe que era antigo conhecido. Não entendia o desejo que não desejava, por isso passou a evitá-lo.

No aniversário da patroa, o arigó entregou-lhe uma carta de demissão subscrita por Manoel Tapajós. Ela fez a leitura em silêncio, de frente para o homem que se despedia com palavras sábias e caligrafia que a fizeram recorrer às mensagens guardadas no baú. Colocou todos os bilhetes, o cartão de aniversário e a carta sobre a mesa e perguntou, embaraçada:

  • – O que significa tudo isso? Quem é você, afinal?
  • – Perdoe-me, Maria! Sou apenas um arigó sofrido. Esses bilhetes foram escritos com o mais puro sentimento, mas preciso ir embora. Não quero que sofra mais por causa deles.
  • – Então é você o meu admirador secreto?
  • – Sim, mas eu lhe peço perdão pelo desencontro, por amá-la tanto e por não ter tido a coragem de me revelar desde o início.

Ela guardou os bilhetes, rasgou a carta de demissão e ficou imóvel diante do homem entorpecido. O silêncio trazia de longe a algazarra dos seringueiros e o canto indolente das cigarras. O sol, feito borracha flamejante, boiava do outro lado do rio, colorindo ondas e espantando mutucas e borrachudos. E quando perceberam, já estavam abraçados, entre afagos involuntários.

Mãos se encontraram sôfregas e vozes murmuraram na boca da noite. O céu chegou tra zendo a lua e o chão fugiu dos pés. A alma de Maria confessou ser aquele o abraço que esperava receber na praça, no dia da chuva. Era aquele homem secreto que seu coração pedia e que somente agora se revelara para fazê-la viver de verdade. Lágrimas e corpos se fundiram rebocados pela madrugada e reencontrando-se todos os dias como dois rios fazendo renascer a vida.

Maria cancelara as viagens de negócio e comercializava seus produtos no próprio porto, onde o novo marido comandava o embarque, junto com os estivadores. A simplicidade e a fineza de Manoel Tapajós fizeram aumentar a freguesia no seringal, assim como suas palavras doces e a admiração pela esposa irradiavam amor pela casa, estradas e igapós, quase sempre com bilhetes apaixonados.

Manoel pegava navio apenas uma vez por mês para depositar dinheiro na cidade, de onde tornava com presentes para a mulher e o menino. E foi numa dessas curtas viagens que ele ficou amigo de uma garçonete educada e extrovertida que a bordo lh e servia creme de cupuaçu dizendo-lhe frases bonitas, semelhantes às que ele costumava escrever. A jovem simpática demonstrou-se profunda admiradora de Manoel Tapajós, o que revelou num bilhete secreto e enaltecedor de suas qualidades de homem culto, simples e com irresistível cheiro de borracha. Ele leu o bilhete e riu da inocente moça. Foi dormir envaidecido, porque nunca fora antes cortejado, e sonhou a noite inteira com a esposa em seus braços, ardendo de desejo.

O dia chegou chuvoso. O camarote onde Manoel Tapajós viajava acordou perfumado, com as horas sonolentas se arrastando no barulho da chuva e do navio. Os olhos da cama pousaram embaçados e curiosos na formosa silhueta da moça do cupuaçu, que, buliçosa, sentara-se ao leito, com os cabelos soltos, o olhar de Iara e o corpo como veio ao mundo.

 

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