|
Em 1964 perguntam a Roland Barthes: em que critérios o senhor se fundamenta para dizer se um livro faz ou não parte da boa literatura? Barthes responde: a respeito da literatura, não me limito a raciocinar em termos de bom ou mau: me interesso por textos perigosos. *** A escritura é aquela que se coloca no entre alguma coisa e outra – entre o sim e o não; entre o bom e o mau. Se o discurso afirmativo – que é o discurso da Opinião, do Militante e do Tédio – corre sempre o risco de se cristalizar e se tornar o invariável, de se reduzir ao discurso mesmo do poder, a escritura deve fazer essa posição balançar, tremer. Barthes, então, sugere o neutro – sua potência. E nesse jogo, a escritura deve fazer oscilar o sentido mesmo, e desviá-lo em outro. “A escritura propõe tanto sen tido a ponto de evaporá-lo”, escreve Barthes. No lugar do significado franco, transparente, pleno, a escritura potencializa com a palavra em silêncio, em opacidade – e o sentido permanece, dessa forma, em isenção: num jogo de tensões que deve alcançar o seu limite. O escritor, dessa forma, é aquele que foge, se esquiva – pois somente assim ele cria potência: a potência do nada. Ao invés, portanto, de construir um discurso, o escritor constrói um dis-cursus – que é a ação de correr de lá prá cá, idas e vindas: descaminhos. Sempre de revés, e sempre do avesso. *** O escritor opera na língua, e é mesmo a língua que deve ser desviada, implodida. Escreve Gilles Deleuze: “[...] um grande escritor sempre se encontra como um estrangeiro na língua em que se exprime, mesmo quando é a sua língua natal”. A escritura é, portanto, um ato de língua, a invenção de uma outra: uma língua menor que desequilibra a língua-mãe, a língua-pai: é a língua irremediável que gagueja e se coloca no intervalo do sentido. A escritura, dessa forma, está ao lado do inacabado, do fragmentário, e não do concluído e do completo – a escritura é como se fosse um mistério, que nunca se realiza: dialética sem síntese. Esses acontecimentos na fronteira da linguagem, na linha que separa o preenchimento do vazio, levam a língua a um estado de tensão capaz de se confrontar com o silêncio e tocar um espaço fora – fora da clausura, fora das determinações, fora do poder. A escritura enquanto deriva: e a escritura enquanto devir – como aquilo que vem. *** Cada deriva é, então, um lance de dados e, principalmente, um lance de dardos – que fere, que faz pungir a estabilidade medíocre de nossas normalidades: que corta o previsto e despedaça o todo. Esse é o perigo da escritura, esses textos que quase sempre vacilam e nos fazem vacilar: sair de si em direção ao outro. Cada escritura é um golpe. |